A complicada relação em ser adulto e assistir animes





"Você já não tá velho pra ficar assistindo desenho?"
"Como você ainda consegue gostar dessas coisas?"

Não é fácil ultrapassar a barreira dos 18 anos. No momento em que você atinge essa idade, querendo ou não, você estará diante de conceitos que a sociedade nos impõe quando chegamos a esse fatídico dia. Hoje estou na marca dos 23 anos, já vivo meia década sendo julgado por conta de me manter a diversas atividades, hobbies e gostos considerados infantis por grande parte da população. E quero expor aqui experiências, dúvidas e pensamentos sobre essa complicada relação.

Assistir animes é uma coisa tão normal para crianças e adolescentes. Como muitos que hoje compartilham uma idade próxima a minha, o primeiro contato com animes foi através de uma emissora aberta ou via Cartoon Network e similares. Nessa época, não fazíamos questão de diferenciar anime de desenho. Para mim, Pokémon, Dragon Ball, Rurouni Kenshin, Sakura Card Captors e outros eram apenas desenhos mais "bonitos" (o tema desenhos vs animes fica para outro artigo). Desde os meus 10 anos, já era notável a preferência por animes a desenhos ocidentais, e tive a sorte de ser uma criança no fim dos anos 90 e pegar uma saga de ótimos animes com boa diversificação e enredo.

Com o passar do tempo, fui aprofudando meu conhecimento sobre o que eram animes/mangás e acabei entrando em um universo que era muito mais profundo e complexo do que eu imaginava. Obviamente o que era um gosto, virou uma paixão. Minhas tardes pós escola se resumiam (além de jogar) em assistir animes, tanto pela TV quanto pela Internet (lembre-se que nessa época internet não era algo ainda tão acessível em boa velocidade, e portanto tanto número de episódios e qualidade que eram fornecidos eram em uma quantidade infinitamente menor a de hoje).

Ao chegar no ensino médio, você já começa a notar uma certa mudança de comportamento, não só de seus pais e familiares, mas de seus amigos também. De repente o assunto anime já não é mais tão comentado no seu círculo de amizade, e pior, já começa a ser debochado. Lembro-me uma vez de estar assistindo Corrector Yui, clássico Mahō shōjo do fim dos anos 90, e meu pai entra no meu quarto. Não preciso dizer que a expressão de ver seu filho de 16 anos assistindo um anime desses não foi de orgulho. "Que coisa de menina é essa?", "Não acredito que você ainda tá assistindo essas coisas, quando você vai crescer?", "Você já não é mais criança!".

Palavras que, apesar de terem boas intenções de estimular a fase adulta e a responsabilidade, nos machucam pois atingem diretamente algo de gosto pessoal. Claro que o adolescente rebelde a primeira instância não se incomoda, e foi exatamente o que eu fiz. Porém, com o passar do tempo essas palavras tornam-se cada vez mais pesadas, e o que antes era um motivo de orgulho e de querer comentar com o mundo, virou um assunto escondido a sete chaves no porão, no qual você precisa ir discretamente toda vez que quiser ter um pouco de diversão. Essa questão é muito mais perturbante do que aparenta, chegando ao ponto de eu mesmo sentir vergonha por gostar de algo assim.


Desenhos, brinquedos e diversas coisas são comumente associadas a infantilidade, a uma época em que não podemos vivenciar novamente. Mesmo que sua consciência saiba que a paixão por alguma coisa não deva ser associada a esse tipo de imagem, nós somos julgados e tratados como tal. Por que quando me perguntam sobre meus hobbies, eu estufo o peito e falo com orgulho que sou baterista e amo música, mas sequer cogito mencionar algo como animes?

Acredito sim que há um limite para tudo. Sem dúvidas não assisto animes na mesma frequência de como quando era adolescente e criança. Tempo é um dos motivos, mas também temos outras preocupações e gostos que adquirimos com o passar dos anos. Não se enganem ao ler esse texto, de que meu desejo é de que homens e mulheres de 30 e 40 anos assistam animes o dia todo. Claro que não. Meu desejo é que esses homens e mulheres, independente da idade, TENHAM o direito de assistir e fazer o que gostam e não serem julgados por isso. Até que ponto um desenho se diferencia de filmes? É tão ridículo assistir um anime de ficção, se no cinema do lado estamos vendo cada vez mais sessões de filmes de super-heróis? Até que ponto alguém que acompanha esses filmes de heróis, ficção e efeitos especiais como Homem de Ferro, Vingadores e outros estão em posição de julgar alguém que assiste desenhos ou animes? Qual a diferença entre um gosto e outro?


Assisto, com menos frequência obviamente, mas, com muita paixão, animes e desenhos. E acredito sim que temos que estabelecer limites PARA TUDO a medida que envelhecemos, porém, eu gostaria muito de viver em uma sociedade onde podemos nos abrir verdadeiramente sobre nossos hobbies, e acima de tudo, que não sejam comparados ou colocados abaixo ou acima de outros.

Se você leitor, ainda não chegou a esse ponto da sua vida, use seu tempo para aproveitar sem preocupações seus gostos. Se você chegou nesse ponto, não tenha vergonha. Só você sabe a sua própria maturidade ou não, e como seus gostos e paixões não influenciam nem um pouco esse quesito.

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