Animes x Desenhos: Uma Análise Comparativa

anime vs desenho









ESSE ARTIGO É ORIGINALMENTE DO SITE MYANIMELIST

Independente se você prefere um ou outro, há diferenças notáveis entre o que é popular na animação americana e na japonesa. Quais são as causas da divergência de arte e animação dos dois, que as fizeram evoluírem de forma tão diferente? E como a abordagem diferente deles começaram a se aproximar nos últimos anos?

Esse tópico de animes x desenhos sempre gera discussão entre os fãs. De um lado estão aqueles que cerram os dentes e fecham os punhos se você ousar chamar qualquer anime de "desenho", já que "desenhos são para crianças". Do outro lado, aqueles que ridicularizam animes e fãs e que "anime é para perdedores". Ninguém pode negar, no entanto, de que há uma grande diferença entre as indústrias de animação ocidental e oriental, mas será que alguma é superior a outra? E a medida em que a influência dos animes cresce cada vez mais no ocidente, será que os desenhos estão começando a compartilhar algumas similaridades?

Qualidade
(estamos falando sobre a qualidade do trabalho, diferenças entre os traços ocidentais e orientais são outra coisa)


anime vs desenho


Que uma coisa fique bem clara: Nem todos os desenhos são ruins, e nem todos animes são bons (se bem que isso não deve ser novidade, já que você está visitando um site de anime). A Lei de Sturgeon (que diz que 90% de um todo é lixo) é aplicável nos dois lados, tanto para desenhos quanto animes. Possuir uma preferência por uma dessas animações sob a outra é compreensível por que cada um tem um gosto pessoal, mas não se pode generalizar e categorizar toda a outra animação como lixo. Repudiar uma animação ocidental como Gigante de Ferro mas relevar Garzey no Tsubasa somente pelo seu país de origem e diferença de animação é um absurdo. Repudiar Hotaru no Haka ou Full Metal Alchemist como sendo uma "droga para crianças" enquanto se banha na nostalgia da abertura de He-Man é igualmente idiota.

Gêneros

Enquanto a qualidade dos desenhos americanos e japoneses não são necessariamente tão diferentes, há algumas particularidades entre estilos e gêneros que tornam eles diferentemente populares. Desenhos americanos tendem a ir mais pela comédia, e apesar de não serem necessariamente colocados para crianças, a maioria das animações americanas são "family show", em que toda a família pode assistir. Anime também possui suas comédias e suas séries mais para crianças/família, mas os gêneros e os tipos de público são muito mais amplos, como por exemplo, gênero drama/realista, algo que as animações americanas talvez nunca cogitassem fazer.

As diferenças entre as duas indústrias podem ser explicadas historicamente. Os primeiros desenhos americanos eram pequenos curtas teatrais. Quando se ia ao cinema nos anos 30, se pagava pela experiência completa, incluindo jornais e curtas (tanto animados quanto live action), que antecediam o espetáculo principal que era o filme. Nesse contexto, curtas animadas eram mais efetivos como pequenas atrações de comédia. Também serviam como "showcase" para as músicas de estúdios (precursores dos clipes musicais), estabelecendo uma conexão entre desenho e música (por isso havia muitos musicais nos desenhos antigos, como por exemplo Fantasia de Walt Disney), coisa que não existe tanto no Japão (o curioso é que há vários musicais de "teatro" no Japão que são baseados em animes, mas poucos animes "musicais").

anime vs desenho


Por um bom tempo, filmes longos de animação eram quase que um domínio exclusivo da Walt Disney. Disney tinha algumas ambições e foi bem experimental em seu início de carreira, mas após o desastre comercial, de uma animação mais "adulta" que foi Fantasia (independente de ser uma obra prima musical e artística), ele decidiu apostar seguro na fórmula dos contos de fadas que já o havia dado dinheiro anteriormente, como Branca de Neve. Isso iniciou o conceito de que animação devia ser voltada primariamente para crianças e a família, uma cicatriz que se agravou quando as animações chegaram à televisão nos anos 60. A televisão matou a ideia do curta teatral que fora introduzido nos anos anteriores, e com isso, abriram-se as portas para a comédia revolucionária dos desenhos da Warner Bros e os experimentos dos curtas da UPA (para quem não conhece, desenhos como Mr. Magoo são desse estúdio). Apesar desses curtas passarem na televisão antes de shows direcionados a adultos e um público mais maduro, a maioria dessas animações foram depois jogadas de lado para as manhãs de domingo, horário em que a maioria dos adultos ainda estavam dormindo. Os Flintstones tiveram algum sucesso como uma "sitcom" em horário nobre, mas outras animações não tiveram tanta sorte. Somente depois de mais de duas décadas, quando Os Simpsons chegaram ao mercado, que os desenhos de comédia comercialmente viáveis a adultos, voltaram a ficar nos holofotes.

As diferenças entre animes e desenhos americanos, em termos de diversidade de gêneros, podem ser demonstradas pelas diferenças entre suas duas figuras mais influentes: Disney e Osamu Tezuka. Tezuka admirava Disney, e seus grandes sucessos como Astro Boy e Kimba, foram influenciados diretamente pelo estilo de arte e de conteúdo amigável de seu ídolo, demonstrado em Pinocchio e Bambi. Mas enquanto Walt Disney envelhecia de forma mais conservadora, os experimentos de Tezuka nunca cessaram. Além de seus shows para crianças, ele também experimentou com dramas médicos, trabalhos históricos, de meditações filosóficas, de horror, e até mesmo de erotismo.

É importante ressaltar que, na época, vários mangás de Tezuka não podiam ser publicados nos Estados Unidos. A Comics Code Authority (uma espécie de órgão regulador), fundada em 1954, era extremamente rígida e acabou matando todo o tipo de gênero que poderia se popularizar por lá, como horror e romance, deixando apenas um conteúdo "limpo" de super-heróis e coisas de criança. Com o passar do tempo, os quadrinhos americanos se recuperariam, mas sem tais restrições tão pesadas, mangás dos anos 50 a 70 cresceram de forma a incorporar todo gênero e audiência possível.

Como a indústria do anime era tão "amarrada" ao manga, era apenas uma questão de tempo antes que os animes conquistassem públicos diferentes. As primeiras séries de anime na TV dos anos 60, eram a maioria para crianças com temas de aventura, mas já nos anos 70, os adolescentes eram seduzidos por shows como Mobile Suit Gundam, que lidava com um assunto um pouco mais pesado. Pelos anos 80, a primeira geração dos otakus havia começado a envelhecer, e animes para adultos começaram a ser algo mais comum. As limitações econômicas também ajudaram a diversificar animes. Se algum canal de TV americano fizesse um show, era quase certo de que seria um live action. Mas nas emissoras japonesas, onde o dinheiro era menor, as animações caiam como uma luva por serem mais baratas. Portanto, não é de se espantar que algo mais "realista" ou "drama" tenham se tornado gêneros de animes também.

Visual

A maioria das pessoas que assistem animações conseguem dizer de cara, após alguns segundos assistindo, se a animação é ocidental ou oriental. Mas mesmo assim, apesar do que aqueles livros e revistas de "como desenhar anime/mangá" te dizem, definir um estilo de anime em particular é algo difícil. Você não pode simplesmente pegar uma imagem de Kōkaku Kidōta e uma de Lucky Star e dizer que eles são o mesmo "estilo". Então o que faz com que a gente consiga perceber tão facilmente quando se trata de uma animação japonesa ou americana? Bem, há vários itens comuns em animes (olhos grandes, narizes pequenos, gotas de suor no rosto, etc), mas o que faz o anime ser tão diferente de uma animação americana é bem menos sobre qualquer estilo de arte e mais sobre as diferenças nas prioridades e técnicas de animação.

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As animações teatrais americanas dos anos 30 e 40 eram "completamente animadas", com um novo desenho a cada frame ou a cada alguns frames (ou quadros caso você prefira). Esse processo era extremamente trabalhoso e caro para levar à televisão, então técnicas de "animação limitada" foram criadas, como por exemplo, animar em menos frames por segundo, ou então limitar os movimentos ao desenhar apenas partes específicas do corpo em movimento. Isso foi levado tão a sério no início das animações da TV americana, que a maioria dos desenhos dos anos 60 ao 80 pareciam uma "porcaria" por conta disso. Desenhos americanos atuais ainda usam algumas dessas técnicas, mas aparentam serem melhores por uma combinação de fatores como um orçamento maior, software digital, etc).

Desenhos americanos adotaram e se adaptaram a "animação limitada", enquanto o anime que conhecemos, nasceu disso, foi fundado nisso. Animes antigos tinham uma animação ainda mais limitada do que desenhos americanos, mas os animadores descobriram formas de usar o estilo como uma vantagem sem depreciar as qualidades visuais. Qualidades cinemáticas eram enfatizadas. Enquanto os melhores animadores americanos possuem uma tendência de comparar suas criações em atuações, os animadores japoneses tendem a focar mais na cinematografia. Isso não significa dizer que não há visuais impressionantes em desenhos americanos, e nem que falta uma animação expressiva dos personagens em animes. Mas essas prioridades diferentes certamente explicam muito sobre as diferenças de estilo e visual. Animes tendem a ignorar a ideia de um frame rate consistente; uma cena pode ser apenas uma câmera se movendo em uma imagem estática, enquanto a próxima pode ser fluida e mais cheia de ação. Mesmo hoje, em animes com grande orçamento, é possível encontrar cenas animadas com menos frames enquanto a contraparte americana tende a animar mais quadros por segundo. Dependendo da complexidade da cena, a diferença na fluidez é quase imperceptível e muito menos dramática. A essa altura do campeonato, não é mais uma limitação e sim uma escolha consciente. 

Outras diferenças são baseadas nas agendas de produção. Animes geralmente focam menos na sincronia labial do que a animação americana, não só por cortar custos, mas também porque geralmente a agenda de um anime se inicia com a produção da animação antes da dublagem. Na animação americana, as vozes são gravadas primeiro.

Rumo a Semelhança

Enquanto animes começaram com fortes influências de Walt Disney e outros desenhos americanos, antes de evoluírem para sua própria identidade, nos últimos anos, os desenhos ocidentais tem sido influenciados cada vez mais por animes. Nos anos 90, a influência ainda era pouca e sutil. Bruce Timm já citou Akira como uma de suas influências, e John Lasseter da Pixar já demonstrou apreciação pelos trabalhos de Hayao Miyazaki.

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Após a explosão de Pokemon no início dos anos 2000, muitos desenhos americanos começaram a ter similaridades com animes. Os melhores exemplos desses desenhos-anime foram feito por pessoas que realmente entenderam as influências nipônicas como a série Teen Titan de Glenn Murakami, MEGAS XLR de George Krstic e Jody Schaeffer e, é claro, Avatar: The Last Airbender de Bryan Konietzko e Mike DiMartino, uma das animações mais bem feitas e escritas, e provavelmente a animação americana no qual a maioria das pessoas possam ter se confundido como um anime. 

Agora a animação ocidental se encontra em um momento único: a ascensão da primeira geração de animadores americanos que cresceram assistindo animes como algo normal. A ascensão de histórias mais complexas e serializadas em desenhos como Hora da Aventura e Gravity Falls, que apesar de terem mais a ver com temas e costumes americanos, possui um estilo que permite um conto de história mais serializado, onde há uma continuidade e revelações ao longo do tempo, coisa que sempre foi associada a animes. 

A influência dos animes já foi responsável por ótimos desenhos. Bee and Puppycat combina o estilo de mahou shoujo de Sailor Moon com a comédia típica americana de O Rei do Pedaço (King of the Hill). Steven Universe é recheado de referências de Utena a Evangelion, e sua combinação de um humor peculiar, um mundo inteligente e fortes emoções, o torna um dos melhores desenhos em qualquer país. Yoh Yoshinari é um fã tão grande, que ele desenhou Connie, de Steven Universe, além de Dipper e Mabel, de Gravity Falls, em Little Witch Academia 2.

Avatar: The Last Airbender gerou também The Legend of Korra, que possui uma história menos consistente mas com um grande avanço visual. Hoje, grande parte da equipe de Avatar/Korra está trabalhando no reboot de Voltron para a Netflix.

Muitas das influências de animes ainda são reguladas para serem colocadas em uma programação infantil e desenhos americanos ainda tendem a serem bastante direcionados a comédia. Mas mesmo que o ocidente ainda não produza animações "adultas" com tanta frequência, o futuro da animação é esperançoso, grande parte, graças a influência de animes. 


Minha opinião pessoal: Menos ódio e mais amor. Tanto desenhos quanto animes são ótimos, divertidos e necessários. Nenhum é mais ou menos importante. Não se sinta ofendido se falarem que anime é desenho, porque essencialmente, não deixa de ser verdade e não há nenhuma ofensa nisso.

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