Percepções sobre a CLAMP





Ano que vem, a CLAMP completa 30 anos de existência, mas até lá eu tenho tempo pra fazer algo mais bonito e dedicado, por ora, só gostaria de ressaltar um pouco o trabalho delas.

Apesar de ainda não ter lido todos os trabalhos da CLAMP, me considero um grande fã desse grupo, que esteve presente desde a minha infância, com um grande destaque para Cardcaptor Sakura. Acho difícil que alguém que esteja tão envolvido na comunidade otaku não conheça o nome CLAMP, mas para aqueles que talvez não saibam, o grupo de mangakás formado por apenas 4 mulheres, no começo eram 11 pessoas, mas muitas foram saindo ficando só as quatro, sendo elas: Nanase Ohkawa, Mokona, Tsubaki Nekoi, Satsuki Igarashi.



Ao longo desses anos, essas quatro foram responsáveis pela criação de personagens, histórias e artes que são referências e ícones até hoje. Trabalhos como X/1999, Magic Knight Rayearth, Cardcaptor Sakura, Chobits, xxxHolic, Tsubasa: Reservoir Chronicle, Kobato, etc. Ao contrário do que muitos artistas, que preferem se especializar em um tipo de gênero, a CLAMP em sua biblioteca, abrange diversos públicos de gostos diferentes, desde algo mais inocente e comédia a um drama bem intenso. Quero tentar abordar alguns dos lados positivos e negativos que vi durante alguns trabalhos e relatos de pessoas que também acompanharam esse grupo.

O primeiro ponto é o histórico. O grupo está no mercado há um bom tempo, tempo suficiente para serem reconhecidas como profissionais dedicadas, daquelas que abandonam a vida pessoal para se dedicarem a suas carreiras. Muitas vezes as integrantes (por serem poucas também) encararam diversas questões de saúde. E com a popularidade, a exigência por mais trabalhos e qualidade, consequentemente o gasto de energia física e mental aumentam. Com isso tudo, vale ressaltar que são todas perseverantes ao ponto de sobreviverem com seus trabalhos nessas situações por quase 3 décadas.

O que falar das ilustrações? A arte da CLAMP é algo simplesmente indescritível. Possui um toque de genialidade em cada traço. Tudo é simplesmente bem desenhado e refinado. Mais do que isso, são traços únicos, facilmente reconhecíveis. Não apenas os personagens, mas o cenário, os detalhes, tudo é de uma maestria sem igual. Cada atmosfera exige um estilo de desenho diferente, por isso vemos diferenças entre seus trabalhos, porém é só bater o olho que reconhecemos os traços. Dentro disso incluímos as capas de seus mangás. Não apenas conseguem ser ainda mais artísticos, mas essas ilustrações não estão somente como decoração. Cada ilustração dos trabalhos da CLAMP são, muitas vezes, propositalmente colocados daquela forma, com a intenção de contar uma história toda em apenas uma imagem ou apenas dar teases de possíveis desfechos ou plot twists. Se tem algum lado negativo nesse aspecto, é que talvez algumas pessoas não acostumadas com esse estilo, podem perder um pouco de tempo extra pra "renderizar" o cenário e o que está acontecendo em certas cenas. Por outro lado, por estar há tanto tempo no mercado, é normal que depois de algum tempo, vários personagens fiquem... "parecidos". Afinal, são muitos personagens ao longo de quase 30 anos.

Quanto aos gêneros, já citei lá em cima. Drama, romance, mistério, aventura e comédia. A CLAMP já abordou vários gêneros diferentes para públicos de idades diferentes. Mas acima de tudo isso, seus trabalhos fazem algo a mais, conseguem quebrar essas barreiras de gêneros, públicos e idades, seja misturando gêneros totalmente diferentes em um único trabalho, ou simplesmente sendo genial naquilo que propôs. Qualquer machão de 30 anos ainda vai conseguir degustar de um anime kawaii como Cardcaptor Sakura. Existem trabalhos da CLAMP pra todo tipo de otaku exigente, desde o otaku misterioso, enigmático e filósofo ao mais drama queen e romancista.

Mas de nada tudo isso adianta, se as histórias não forem boas também. E apesar de ter divergências, acho que é sensato dizer que as histórias da CLAMP são muito bem construídas, e melhor, desenvolvidas. Não significa que estão isentas de críticas ou de melhorias, mas no geral, são todas histórias tocantes que envolvem o público facilmente. Além disso, já no meio da história, a CLAMP passa um sentimento de que não teremos um final feliz, e isso apenas te deixa mais apreensivo para saber o que acontecerá. Além disso, elas não falham em deixar páginas em branco durante a narrativa, qualquer coisa que possa ser explorada futuramente em um eventual plot twist. Como diria a mãe de Forrest Gump, ler uma história da CLAMP é como uma caixa de bombons, você nunca sabe o que vai encontrar.

O que falar da diversidade? É frequente nos trabalhos da CLAMP presenciarmos relacionamentos homossexuais. Sem entrar no mérito se os relacionamento desses casais são definidos como um amor perfeito ou correspondidos, podemos citar Yukito x Touya, Tomoyo x Sakura, Kurogane x Fai*, Subaru x Seishirou, Kamui x Fuuma, entre outros. Se esses casais "funcionam" ou "não funcionam" com o rolar da série, não importa. Eles foram abordados e é isso que importa. E o melhor, muitas vezes é colocado de uma forma tão sutil, que muitas pessoas sequer reparam que havia essa questão. Quem aqui assistiu Cardcaptor Sakura quando criança imaginava que os sentimentos de Touya com Yukito e Tomoyo com Sakura tinham essas cores? Nós entendíamos como um amor puro e verdadeiro, que no fim das contas, é o que a CLAMP tenta retratar. Isso cria uma empatia com a diversidade de amores nas crianças, sem escancarar um relacionamento que elas talvez ainda não consigam compreender. Vale lembrar que a CLAMP trabalha esses temas desde o final de 80... onde era muito mais complicado abordar esse tipo de assunto.



Se por um lado a diversidade é um ponto positivo... vamos dizer que tem um lado sombrio também. Alguns pontos abordados pela CLAMP, em especial no que diz respeito a relacionamentos, me incomodam. Incesto entre irmãos e primos, por exemplo. É compreensível (ressalto o "compreensível") que primos acabem criando esse tipo de relação devido a serem próximos mas de um jeito diferente que irmãos. Mas incesto entre irmãos é algo simplesmente complicado de se lidar. Eu não sei qual o fetiche que japoneses tem por esse tipo de relacionamento proibido, mas é um tema comum e recorrente em mangás e animes. Mas enfim, eu posso relevar tudo isso quando os casais possuem idades aproximadas, pois dependendo do tipo de ambiente que vivem, essas coisas podem acontecer de forma natural. Agora o inaceitável é querer transmitir pedofilia como se fosse algo fofo ou bonito (a propósito, ainda vou escrever um artigo bem complexo sobre lolis no futuro, vai ser bem mamilos polêmicos). Eu não consigo entender o que passou na cabeça delas quando decidiram criar um casal de aluno-estudante como Terada X Rika. Vamos lembrar que Cardcaptor Sakura conta a história de CRIANÇAS. RIKA está no FUNDAMENTAL. Já seria estranho uma aluna do ensino médio se relacionar com um professor, que dirá do fundamental. No anime, a pior cena foi cortada então é menos danoso. Durante o anime, Rika não esconde o amor que sente por Terada, explicado pela sua semelhança com seu pai. No anime dá pra se passar como um relacionamento inocente, onde Rika tem uma paixãozinha de garota por um cara mais velho, e Terada parece simplesmente entender como um gesto carinhoso sem criar grandes aproximações (ficando sem jeito uma vez ou outra). No entanto, no mangá, ele a pede em CASAMENTO. Eu já ouvi pessoas defendendo esse tipo de coisa dizendo que "Ah, mas é um amor puro que eles tem, não é nada desse tipo... Eles são felizes". Não deixa de ser absurdo. Estamos falando de um adulto estabelecendo uma relação com uma criança. Rika é uma criança, Terada não. Terada sabe as implicações de um relacionamento, planos de casamento implica planos adultos, situações adultas, ou seja, Terada não está só pensando inocentemente. Mesmo que ele "espere", ele não deixa de estar pensando "naquilo", e olhando isso para uma Rika ainda criança, é ainda mais nojento. Vale lembrar que isso está sendo passado como "NORMAL" para um público infantil, que com certeza não é algo que eu, como pai, gostaria que minha filha de 8-12 anos visse.



Para não prolongar mais, um ponto sobre a complexidade das histórias. A CLAMP é conhecida por explorar temas e enredos extremamente complexos, cheios de reviravoltas e mistérios. Muitos deles são tão desnecessariamente complicados, que podem trazer mais dúvidas pro entendimento da história do que respostas, além de afastar aqueles que não conseguiram acompanhar, ou simplesmente não tiveram a paciência. Além disso temos os crossovers. Muita gente (como eu) gosta desses crossovers, e o universo CLAMP é repleto deles. Alguns são apenas cameo, mas alguns crossovers são ótimos pro desenvolvimento da história. Por outro lado, é uma técnica tão utilizada por elas, que acaba ficando saturado também. Portanto há sempre o lado positivo e negativo nesse ponto.

Enfim, deixando os poucos pontos negativos de lado, é impossível não dizer que a CLAMP é uma grande influenciadora da indústria. Produzindo ótimos trabalhos, com uma equipe pequena mas excelente, de temas variados e com um sucesso imenso. Sem dúvida, um grupo de quatro mulheres que me deu muita alegria e ajudou a formar minha própria personalidade e caráter também.

Todo artigo postado por mim, a.k.a. Kenji-san, é baseado em minhas próprias opiniões. Sinta-se livre para discordar, mas mantenha o nível e respeito nos comentários. Toda discussão é válida 

* Nota da Revisão: Além de "Fai", as formas "Fye" e "Fay" também são corretas, podendo ser usadas à escolha de quem escreve/legenda.

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