Por que gostamos de histórias sobre "Outro Mundo"?






Por que japoneses gostam de protagonistas "presos em outro mundo"? Alguns bloggers japoneses tentam explicar.

Durante minhas aventuras nas interwebs nipônicas, eu raramente vi pessoas dizendo qualquer coisa positiva sobre essa tendência de histórias "isekai" (preso em outro mundo), especialmente em Light e Web Novels. Essas histórias são, frequentemente, taxadas como superficiais, masturbatórias e cheio de "realizações" baratas de nossos sonhos e desejos. Está saturado, dizem eles. "Já é clichê. Parem de adaptar tantas histórias assim para animes".

A fandom japonesa é igual a qualquer outra fandom, no sentido de que apesar da maioria dos comentários na internet sobre esse tema serem críticos e negativos, existe um número significante de pessoas que adoram esse tipo de história. Existem vários netizens que tentam explicar qual seria o apelo do gênero narou, mas, a maioria explica o assunto com um teor um pouco desrespeitoso, as vezes até chegando ao ponto de argumentos do tipo "são shows superficiais de fantasia para nerds que nunca terão uma namorada". De qualquer forma, alguns bloggers tentam explicar de uma forma mais civilizado do porquê de gostarem do gênero narou.



A primeira coisa que me impressionou no apelo dessas histórias narou (de acordo com os fãs) é como são meticulosamente cínicas. Em uma entrevista da 4Gamer.net, o blogger Umetsubame diz que as pessoas menosprezam histórias narou porque acreditam que pessoas devam trabalhar duro para obterem sucesso. Porém, na vida real, muitas pessoas trabalham duro sem sucesso, enquanto outros não fazem nada e ainda assim são vencedores.

Nobuo Kawakami, Diretor Representativo da Dwango, complementa: "De fato, a ideia de que se você se esforçar você (sempre) terá sucesso, que é fantasia".

Isso não é necessariamente errado, mas de alguma forma parece mais como uma justificativa simples para essas histórias narou. Aqueles que obtém sucesso na sociedade sem muito esforço, geralmente nascem em uma família rica ou em circunstâncias privilegiadas. E esse tipo de pessoa não é a que nos é apresentada nos protagonistas dessas histórias. Como que isso seria mais realista do que a história de uma pessoa normal trabalhando duro obtendo sucesso dessa forma?

O suposto "realismo" em histórias narou faz mais sentido quando você considera o cenário delas. Se a ideia é de que as pessoas trapaceiem até o topo da sociedade, então para um protagonista narou ter sucesso, ele deve ser colocado em um mundo onde suas habilidades em particular podem ser usadas como "trapaça". Não é surpresa, então, que a grande maioria de histórias isekai são baseadas em mundos "JRPG", especialmente em cenários pseudo-medievais como Dragon Quest ou os primeiros Final Fantasy.

O blogger Daichi Saito coloca dessa forma: "Mais do que tudo, a lembrança de uma pessoa ao jogar um videogame a gera felicidade". Em outras palavras, as pessoas de hoje não sentem o prazer e a felicidade do sucesso, fora as conquistadas em um jogo.

Isso, possivelmente, explica o porque tantas web novels são colocadas como rotinas de jogos: "Eu acordei, lutei contra slimes, upei três leveis, e fui para a cama. No dia seguinte, acordei, lutei com mais slimes e upei 4 leveis." etc, etc. A leitura talvez não seja das melhores, mas pode ser colocada de uma forma de adicionar realismo em uma história sobre viver num mundo daqueles igual a videogames.



Isso também explica o porquê de tudo se encaixar para esses protagonistas narou, assim que eles descobrem o "segredo" para o sucesso - e o porquê de poucos deles conseguirem sucesso no seu "próprio mundo", mesmo no fim das histórias. O protagonista de Mushoku Tensei nunca retorna ao seu mundo original, mesmo no fim de sua vida. E também temos histórias como No Game No Life, onde fica bem explícito desde o início de que os protagonistas não possuem intenção de voltar a seu mundo original. O pensamento de retornar sequer foi mencionado ou cogitado por Subaru em Re: Zero também.

O que eu acho peculiar sobre isso tudo é a falsa suposição de que apenas as pessoas que sabem "trapacear" o "sistema" podem vencer na vida. Umetsubame explica esse cinismo como o resultado do atual clima social. O Japão já não vive mais a sua bolha econômica, não há garantia de trabalho para os jovens, e para ser contratado, você deve esconder sua individualidade. Em vez de menosprezar fãs narou, Umetsubame coloca os padrões tirânicos de sucesso da sociedade como o grande problema oculto. Você pode trabalhar, trabalhar e trabalhar, mas ainda assim ser demitido de seu trabalho. A função das histórias Narou não são de apenas como uma válvula de escape para a ficção, mas também como uma afirmação dessa visão de mundo em particular.

Como vocês devem ter percebido, não é uma visão de mundo que eu pessoalmente compartilho. Aliás, escutar que as histórias isekai são críticas do Japão moderno apenas me confude, pois a vida nesses mundos de fantasia parecem muito piores que o Japão, para todo mundo, exceto para o protagonista. Em algumas web novels, a escravidão é uma prática comum. Na popular web novel, apropriadamente nomeada de Slave Harem in the Labyrinth of the Other World (Harem Escravo no Labirinto do Outro Mundo), o próprio protagonista compra garotas como suas escravas sexuais. Alguém pode até comentar que é mais sensato ou "realista" um cara não popular comprar um harem de escravas para conseguir o que quer, do que ter várias garotas se apaixonando por ele aleatoriamente e sem nenhum motivo... isso até você lembrar que nessas histórias de harem escravo, as escravas também se apaixonam pelo protagonista. É estranho e desagradável, não importa de que jeito você olhe.

E as histórias onde as pessoas trabalham duro mas falham? Isso é realista também, não é? Mas elas são praticamente inexistentes no mundo das light novels japonesas. Kawakami aponta que esse estilo literário serve para apresentar a verdade cruel para os otakus. Ironicamente, otakus não aguentam esse choque de realidade porque "ninguém quer saber da verdade".

Isso tudo indica que o apelo primário das histórias narou é puramente a fuga da realidade, e não uma crítica social. Pode até ser que as frustrações com a sociedade possam ter ajudado a essas obras de fantasias tomarem a forma que estão, e isso é compreensível. Não é como se os otakus fossem os responsáveis pela invenção dessa "fuga da realidade".

Umetsubame finaliza dizendo algo muito interessante:

Há momentos em que você quer ler histórias verdadeiras, dolorosas. Se você apenas lesse histórias do tipo "moe", apesar de ser gratificante e divertido, chegaria um momento onde você sentiria que tudo é uma grande mentira e você procuraria algo mais "cru", mais "real". E se você fizesse o contrário, você provavelmente procuraria uma história "moe".

Isso, creio eu, é uma questão de sensação e momento. Diferentes sensações para diferentes pessoas em diferentes ocasiões. Eu também gosto de histórias narou de vez em quando, mas é apenas uma dos vários tipos que eu costumo ler. Para aproveitar essas histórias narou, eu nem mesmo preciso me projetar no protagonista. Por exemplo, estou gostando dessa temporada de Re:Zero mesmo considerando Subaru um cuzão. Emilia é fofa e Reinhard é foda, e isso é o suficiente pra mim.

Artigo original: frogkun.com
Traduzido e adaptado por Kenji-san

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