Re:ZERO e o Suicídio no Japão





A ideia desse texto que aqui está, surgiu quando eu estava assistindo o episódio 7 de Re:ZERO. Esse episódio é o pontapé inicial de Subaru para a saída do loop da mansão, no momento em que ele se resolve pessoalmente abrindo mão do seu egoísmo para salvar os outros. O episódio é bem forte pela carga emocional que o dublador de Subaru colocou e o final onde o personagem se suicida para voltar da morte. E qual o problema disso?


Bom, primeiramente, vamos falar um pouco sobre o Japão. Não quero estender muito o texto, então evitarei falar demais da cultura de lá, até porque não sou nenhum expert. (Você pode conferir outros artigos que falo um pouco sobre a cultura deles aqui e aqui) Mas acho que não é segredo para ninguém aqui que o Japão é conhecido por ter uma das maiores taxas de suicídio do planeta, perdendo pra alguns países como Coréia do Sul. Em 2014, mais de 25 mil pessoas se suicidaram no Japão, o que dá uma média de quase 70 pessoas POR DIA. Entre essas pessoas, há jovens, adultos e idosos.

Alguns dos motivos de suicídio da população idosa é por conta da família. O Japão não é tão próspero como pensamos, existem muitos idosos com graves problemas financeiros. Por conta disso, eles encaram suicídio como uma opção. Além disso, os seguros de vida no Japão, em muitos casos, pagam em situações de suicídio. Por isso, os idosos enxergam nisso uma maneira de ajudar e sustentar a família ao mesmo tempo de deixarem de serem um “fardo”. O isolamento familiar também é um dos motivos, já que nos tempos modernos japoneses, os filhos costumam “negligenciar” os pais.

Já os adultos e jovens adultos, o suicídio acontece mais em função da situação financeira e profissional. As condições de emprego hoje são bem diferentes do que num passado não tão distante nas terras nipônicas. Há muito mais empregos temporários e condições mais precárias. Está mais difícil do jovem japonês encontrar um emprego estável. Essa ansiedade causada por problemas financeiros e uma instabilidade de trabalho, acaba criando uma pressão psicológica muito grande, ainda mais numa cultura onde pedir ajuda é muitas vezes interpretado como sinal de fraqueza. Reclamar ou se frustrar do trabalho não é lá bem visto por eles, então a forte pressão de um chefe ou mesmo de uma situação de trabalho podem catalisar ainda mais tudo isso.

E chegamos aos mais jovens, os adolescentes e os que estão no início de suas vidas adultas. Como já vimos, mesmo em animes, há uma incrível pressão para que crianças e adolescentes consigam entrar em boas escolas, ainda no ensino médio. Há um senso de competição enorme e todos os outros alunos são vistos como concorrentes a uma vaga melhor em uma escola melhor, e consequentemente, uma vida melhor. As escolas exigem isso, os colegas exigem isso, os pais exigem isso. Essa forte pressão e exigência em uma mente, ainda em formação, pode ser catastrófica e o assunto suicídio acaba surgindo até mesmo nas cabeças que jamais deveriam ter essa palavra cogitada em seus pensamentos. Acredito que essa mesma pressão seja o responsável por termos 8 ou 80 no Japão. Ou temos adolescentes “role model”, ou temos os famosos hikikomori, onde o nosso Subaru se encaixa.


Também não pretendo fazer uma tese do que são os hikikomori (recomendo darem uma pesquisada, existem artigos e entrevistas muito boas a respeito desse problema no Japão), mas resumindo para você, são pessoas que se isolam em casa evitando contato social direto e geralmente são associados a viciados em tecnologia, animes, jogos, etc. A falta de equilíbrio nessa exigência, pressão e competição criada pelos japoneses acaba criando esse tipo de pessoa, que assim como os outros, estão sujeitos a pensamentos suicidas. Existem muitos adultos japoneses que ainda são completamente dependentes dos pais e não possuem nenhuma experiência profissional, então você já pode imaginar que o pensamento de suicídio, até mesmo por conta das altas exigências de perfeição, não é algo incomum.

E o que isso tem a ver com Re:ZERO? Bom, Re:ZERO conta a história de um personagem hikikomori, que inesperadamente é jogado em outro mundo de fantasia e que possui a habilidade de voltar da morte em “save points”. Esse tipo de história é muito apelativa para hikikomoris na vida real. Eles enxergam nesses enredos, uma maneira de escaparem da realidade, e pela similaridade com Subaru, eles se projetam nesse tipo de personagem, acreditando que até mesmo eles podem ter sucesso de alguma forma. A mente de algumas dessas pessoas podem estar tão instáveis, que apenas um anime pode ser o pavio de uma má decisão. Vocês podem até achar que seja um exagero, mas com certeza podem rolar pensamentos do tipo: “se eu me suicidar, quem sabe eu não volto da morte em um mundo de fantasia?”. Estamos falando do mesmo povo que se casam com travesseiros, jogos e outras bizarrices.

E é aí que o Episódio 7 entra. No episódio 7, Subaru toma uma decisão e decide se jogar do penhasco para poder voltar e salvar a todos. Claro que suas intenções são das melhores, e inclusive o discurso dele mostra isso. Mas a forma como esse discurso foi colocado, pode ser muito mal interpretado também. Lembre-se que, essencialmente, o anime está mostrando que o suicídio era a única opção de Subaru. Veja agora uma das frases que Subaru fala antes de se jogar do penhasco.

“Eu sempre fui alguém que foi pelo caminho mais fácil.”

“Perdoe-me... Eu fiz todos vocês sofrerem por eu ser um perdedor.”

“Eu diria que finalmente tomei uma decisão.”


Essas frases parecem, ou não, algo que remete a uma escolha tomada pela alta pressão e exigência que é colocada na cabeça dos japoneses desde jovens?

“Aff, Kenji. Para de problematizar, não tem nada a ver, ele se suicidou porque era a única alternativa de salvar todo mundo.”

Realmente, eu estou problematizando, e muito! Não vou negar, eu odeio problematização e odeio associações como essas de que o anime pode induzir certas pessoas ao suicídio, da mesma forma que odeio o pensamento de que jogos violentos induzam pessoas a cometerem atos criminosos. Mas é algo que chamou minha atenção pela forma como foi colocado, as palavras, o cenário que o anime se passa e toda a identificação do perfil de Subaru com um segmento de pessoas vítimas de uma sociedade rígida e que estão mais propensas a pensamentos suicidas.

Talvez a gente ache mais ridículo esse tipo de pensamento porque não faz parte de nossa cultura, mas quem sabe como esse episódio possa ter sido encarado por lá? No mais, o anime está sendo ótimo e eu pretendo escrever mais coisas sobre ele, assim que ele acabar. Por ora, você pode checar alguns posts meus sobre ele como os spoilers da web novel (arcos4, 5 e 6) ou ver minha análise do último episódio lançado.

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