Impressões Koe no Katachi

Koe no Katachi review




Raramente eu cedo a pressões de amigos quando me recomendam algum anime ou filme, mas dado ao barulho que ele tem gerado e por uma sinopse interessante, decidi sentar em minha cama por duas horas, acompanhado de um alguns lenços porque eu sabia que Koe no Katachi seria emocionalmente devastante.

Sinopse:
Ishida Shouya pratica bullying em uma garota surda, Nishimiya Shouko, ao ponto de ela precisar se transferir para outra escola. Como resultado, Shouya é excluído e ele mesmo acaba sofrendo bullying, dessa vez sem amigos para conversar e sem nenhum plano para seu futuro.

Essa é a história de seu caminho até a redenção.

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Bullying sempre foi um tema pesado. Muitos ainda tendem a suavizar sua prática de alguma forma, dizendo ser apenas brincadeira de criança ou de ser uma frescura da geração atual. Mas a verdade é que crianças conseguem ser genuinamente malvadas. Na maioria das vezes elas sequer tomam conhecimento do impacto que suas palavras ou ações geram, mas nada fora do comum, é apenas uma maldade natural nossa.

Acho que se trata de um tema relacionável com qualquer pessoa. Todos nós já fomos alvo ou responsáveis por bullying, mesmo que passivamente/indiretamente (como retratado por vários personagens do filme).

O início de Koe no Katachi mostra a vida "ótima" de Ishida Shouya ao fundo de My Generation da banda britânica The Who. Aliás, apenas desviando levemente do assunto, acho triste que muitos espectadores e mesmo pessoas que escreveram sobre o filme não tenham ressaltado essa música. As letras e o significado dela podem ser bem colocados no ambiente inicial do filme e vida de Shouya, e... por favor né, galera? Foi eleita a 11ª melhor música de todos os tempos pela Rolling Stone! Mas enfim, voltemos ao assunto principal.
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Shouya é um garoto popular com uma vida normal, que está prestes a ser tirado de sua zona de conforto com a chegada de Nishimiya Shouko, uma garota com deficiência auditiva. Como uma criança que não está acostumada a lidar com o diferente e fora do cotidiano, Shouya acaba praticando bullying em Shouko, ficando gradualmente pior, chegando no ponto onde ele é exposto e "traído" até mesmo por seus colegas de classe que frequentemente o ajudavam no bullying, mesmo que indiretamente. 

É nesse momento que Shouya entra em uma espécie de confusão. Agora no mesmo barco que Nishimiya, ele é incapaz de entender as ações e reações da garota, que sempre fez de tudo para tentar ser aceita, independente das restrições de sua deficiência (isso é bem evidenciado na cena onde ela participa das aulas de coral).
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Como resultado eles acabam brigando e a família de Nishimiya decide pela transferência. Nisso vemos uma passagem de tempo no qual Shouya passou sua adolescência toda como alguém excluído, incapaz de se comunicar ou se sentir confortável perto de outras pessoas, conforme demonstrado pelos fantásticos ângulos de câmera, sua postura curvada e de cabeça baixa e mais enfaticamente nos "X" no rosto de seus colegas.

A vida de Shouya portanto é uma repleta de remorso e arrependimento. Consigo, com Shouko, com seus amigos e com sua família. O filme põe em questão os motivos para sua redenção. Esse talvez seja um dos fatores que me atraiu tanto nessa obra: de que não estamos vendo o bullying pelo olhar da vítima (como de costume) e sim pelo olhar do agressor e das consequências de seus atos. Na maioria das vezes, temos que captar os sentimentos de Nishimiya sem sua própria percepção, ou seja, apenas por suas ações, expressões e principalmente a linguagem corporal, que é um ponto fortíssimo no filme, como não deveria deixar de ser.
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Obviamente, por ser uma adaptação em forma de um filme de apenas 2 horas, muita coisa foi encurtada ou deixada de lado. É visível que o filme tenta correr em vários momentos, mas sempre tentando aparentar que está num fluxo natural. O assunto da obra é algo, cuja a resolução pra todos os personagens envolvidos é extremamente complicado, e por isso seria necessário um aprofundamento maior neles. Infelizmente, pelo curto tempo de tela, a adaptação se vê obrigada a focar mais em Shouya e Nishimiya, às vezes com bastante tempo dedicado a irmãzinha dela. Os demais são um pouco ausentes, e por isso, temos certa dificuldade em entender melhor o sentimento e razões por trás das ações e pensamentos deles. Ueno, por exemplo, é uma personagem que poderia ser melhor trabalhada em diversos aspectos, desde sua abordagem com Shouko a sua dubladora, que não senti que entregou o melhor que uma personagem do caráter e personalidade de Ueno merecia. Sem desmerecer seu trabalho, mas a personagem tinha um grau de dificuldade grande mesmo. Isso faz com que a gente sinta um amadurecimento real em Shouya, mas não em outros personagens presentes em sua infância. Kawai, por exemplo, é uma que não entendemos bem o motivo de seu "perdão" no fim da animação.
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Em boa parte do filme, ainda buscamos entender se Shouya passa por todo esse caminho e mudança de caráter por Shouko ou apenas por ele. Isso inclusive é questionado pela irmã dela, ainda no começo. Ao mesmo tempo, demais personagens entram nesse conflito de não saberem se odeiam os outros ou odeiam eles mesmos por suas próprias ações e existência. Muito disso é deixado de lado na adaptação, fazendo-se necessário a leitura do mangá para um entendimento completo. O caso mais evidente disso é de que muitos que assistiram não entenderem o porquê de Nishimiya ter chegado "naquela decisão", naquele momento da história. Acontece que ela recebe diversos impactos emocionais (vários que inclusive não são mostrados no filme) que fazem com que ela crie esse ódio por si mesma. Um exemplo seria a cena na Roda Gigante onde a Ueno revela todos os seu sentimentos, e vemos uma Nishimiya completamente em choque (aliás, essa cena dela, abalada emocionalmente, pedindo desculpas é de cortar o coração...). Outra cena em que isso fica bem evidenciado, e que é uma das melhores e mais importantes para mim, é a da ponte, onde todos estão reunidos e Shouya fala algumas "verdades" enquanto Nishimiya apenas observa Shouya se afastando de todos novamente.
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Perto do clímax, finalmente saímos da perspectiva de Shouya e começamos a ver um pouco mais de Nishimiya e dos demais. De novo, cada cena dela chorando era um golpe fatal no meu coração, chorei mesmo. Vimos que a redenção, outro tema do filme, não é apenas algo que Shouya persegue, mas que todos os demais personagens precisam. O final é simplesmente emocionante e é difícil não se deixar levar. É impressionante o quanto você pode gostar/desgostar de um personagem tão rapidamente.

Em termos gerais, o filme é uma adaptação boa, não perfeita, mas que atinge bem o objetivo da obra graças a uma boa animação (KyoAni sua linda), ótimos personagens, tema polêmico, trilha sonora brilhante (o piano muito bem construido durante algumas cenas) e bom desenvolvimento que nos absorve durante os mais de 120 minutos. É o tipo de filme que você precisará rever algumas vezes para absorver ainda mais algumas mensagens e preencher buracos.

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Quanto a "falta de romance" no final do filme, sinceramente, não senti falta. A proposta, o enredo e o tema em si são profundos o suficiente para superar qualquer cena romântica que pudesse rolar no final. Inclusive, acho melhor que isso não tenha acontecido para não roubar o foco da cena final, que foi bem forte para mim. Se eu precisasse definir esse filme em uma palavra... acho que "intenso" seria a palavra mais próxima.

Cena favorita? A briga dos dois na sala de aula, com Nishimiya falando "Estou fazendo meu melhor". E também destruiu meu coração ali, mal consegui segurar as lágrimas.
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Motivos pelo qual você acha que Koe no Katachi virá ao Brasil:

- Tema brilhante
- Ótimo enredo
- Belos personagens
- Animação fantástica

Motivo pelo qual realmente está vindo ao Brasil:
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E você, o que achou do filme?

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