Como é feito um anime? A pré-produção de um anime - Parte 2

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Bem vindo a segunda parte dessa matéria sobre a pré produção de um anime. Na primeira parte, falamos sobre como é dado o primeiro passo na elaboração de um projeto e como ele é feito para reunir o dinheiro e os criadores necessários. Agora é hora de falarmos do processo criativo. Como o anime é escrito?

PARTE 2: ROTEIRO

Como mencionamos antes, cada projeto possui sua própria proposta de produção: um documento é "criado" para vender essa ideia para outros membros da equipe e produtores. Esse documento geralmente contém o enredo geral da história, mas o nível de profundidade varia de um pra outro;  você pode ter uma narrativa mega detalhada e estruturada que se aprofunda bastante nos personagens principais, ou uma abordagem mais "empresarial", onde você apenas menciona o conceito geral com algumas ideias jogadas e tentará capitalizar nisso. Isso também não é algo definitivo, pois existem vários exemplos de enredos que mudam drasticamente do seu conceito inicial.

Como é feito um anime? A pré-produção de um anime - Parte 2

Se você quer saber quanto um anime pode se desviar de sua ideia original, vamos pegar como exemplo: Hanasaku Iroha. Começou como uma série de ação feminina porque o CEO da P.A. Works e Infinite, Kenji Horikawa e Takayuki Nagatani respectivamente, sentiram que era uma progressão natural de CANAAN, e então contrataram Masahiro Ando como diretor devido a sua experiência com o gênero. Enquanto o estúdio terminava a obra Angel Beats, eles perceberam que não queriam fazer mais esse tipo de série, então mudaram o conceito geral para uma série sobre "trabalho" com garotas estudantes. Eles contrataram como compositor da série, alguém que estava acostumada a escrever histórias do tipo, como Mari Okada. E deixaram Masahiro continuar dirigindo, o que ele acabou aceitando pois queria experimentar algo novo além do gênero de ação. Então, não pense que todas as decisões tomadas pelos "chefões" são contra a vontade dos criadores.

Como é feito um anime? A pré-produção de um anime - Parte 2

Assim que uma produção teve o sinal verde e a equipe começa a chegar para o projeto, o próximo passo é planejar o escopo da série e como distribuir o conteúdo nos episódios possíveis. Se estamos tratando de uma adaptação de uma novel ou manga, então é provável que os produtores já tenham uma ideia de como a série vai terminar. Se não há um final definido, ou em andamento, ou obra original, eles tendem a deixar uns ganchos no final para deixar você ansioso e curioso por mais história, que pode ser bom ou ruim, dependendo da sua forma de abordar a situação. Há pessoas que gostam de um gostinho de quero mais e outras que preferem algo conclusivo.

Caso a editora saiba que o autor está prestes a finalizar a história, então é possível que eles comecem a colaborar com a equipe do anime para que tanto a adaptação quanto a obra original terminem no mesmo momento. Um dos melhores exemplos disso envolve a Ascii Media Works e a Genco no anime Toradora!, que adaptou todas as 10 novels (mais um pequeno extra) em 25 episódios, finalizando três semanas após a última novel ser publicada. Outro bom exemplo seria Ichiro Sasaki, que confiou mais de uma vez no estúdio BONES, para que eles pudessem animar completamente Scrapped Princess e Chaika, mesmo antes do final da novel ser publicada. Isso que é confiança no elenco e equipe!

Como é feito um anime? A pré-produção de um anime - Parte 2

Os fãs sempre ficam especulando que o ritmo acelerado do anime seja devido a "Empresa X prometer mais episódios e então precisar cortar esse número depois". Acontece que isso raramente é o caso... apesar que, obviamente, há exceções. Os produtores da Fuji TV e Aniplex planejavam originalmente que Galilei Donna fosse uma produção de 2 cour (cour é o período tradicional de três meses de transmissão de um show), mas foi reduzido pela Aniplex para apenas um cour por motivos que nunca foram bem explicados. É fácil de se especular sobre outros casos, mas Galilei Donna representa um caso raro onde os criadores realmente confirmaram esses problemas, que os forçaram a espremer o conteúdo em apenas 11 episódios.

Por outro lado, sabemos de um exemplo onde o diretor e o composotir da série brigaram muito por 12 episódios e imploraram os produtores por um extra: Full Metal Panic! The Second Raid. Isso é praticamente padrão em todos os casos, um anime que aparenta ser acelerado é devido a decisões questionáveis tomadas pelo compositor da série e pelo diretor durante a pré-produção, seja porque eles genuinamente acreditam em suas capacidades, ou devido a pressão dos executivos. Isso nem sempre é revelado ao público, obviamente, pois essas decisões são coisas que os produtores não querem que os espectadores saibam. 

Mas então, como uma história é dividida pelos episódios? É um pouco clichê, mas "é uma arte". A maioria dos animes de TV seguem uma estrutura de narrativa padronizada. Eles tentam nos apresentar os personagens, fazer com que nos criemos empatia pelo que são ou o que fazem, adicionam conflitos e resolvem tudo no final. A ideia da "Regra dos três episódios" que os fãs tanto usam, apenas existe porque geralmente, é esse o tempo que leva para toda a introdução ser feita. 

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Por isso, a reestruturação de uma série se torna necessária às vezes, para melhorar o fluxo e como tentativa de atrair rapidamente os espectadores para a sua série em vez das dezenas de outras alternativas disponíveis. Mesmo as pessoas que odiaram Sword Art Online ficaram impressionadas pelo seu primeiro episódio e a tensão quando o conflito foi introduzido, que foi uma das grandes mudanças que o diretor Ito preparou para organizar melhor o material original que lhe foi dado.

Assim que o enredo principal é terminado, o compositor da série passa as tarefas de roteiro para os escritores para cada episódio. O roteirista pega os pontos principais daquele episódio (e o conteúdo da obra original, caso tenha) e então escreve as ações precisas e o diálogo que estarão presente nos 20 minutos de conteúdo no qual são confiados. Alguns compositores gostam de cuidar por conta próprio de cada episódio, como Jukki Hanada, enquanto outros focam nos episódios principais e pedem para os demais escreverem os restantes. Algumas vezes, as agendas lotadas e apertadas fazem com que o compositor da série "desapareça" depois de escrever alguns episódios. Independente disso, é trabalho dos roteiristas de expandir os pontos principais, decididos de antemão pela equipe principal; obviamente que há um espaço para a criatividade aqui, mas o roteirista não é completamente livre para fazer o que quiser, como alguns assumem.

Como é feito um anime? A pré-produção de um anime - Parte 2

Para ser mais objetivo, vamos ver um exemplo. Houve muita discussão a respeito de Flip Flappers, pois sua produção, relativamente corrida, fez com que a pessoa encarregada da história abandonasse o navio após entregar o roteiro da primeira metade. Por conta disso, a segunda metade ficou nas mãos de um escritor da Infinite, uma das empresas envolvidas no projeto. Isso não mudou o conceito da série, pois já havia sido decidida de antemão, mas isso significou alterações em elementos como tons de diálogos. O diretor da série, Kiyotaka Oshiyama, reconheceu que ambos os escritores deixaram suas próprias marcas pessoais na série, mas que isso não significou que o enredo ou a narrativa fosse diferente, afinal, o papel deles consiste em desenvolver as ideias já decididas anteriormente em um episódio de 24 minutos. Ou seja, provando que o roteirista pode colocar traços de criatividade na obra, mas que no geral, não tem a liberdade que gostariam para mudar a narrativa por completo.

Apesar do diretor e o compositor da série lidarem com a direção geral da história e analisarem os roteiros, eles não são os únicos que possuem autoridade nisso. Produtores podem exigir que certos aspectos sejam inclusos. Uma empresa responsável pelo merchandise da obra pode pedir um foco maior em certos personagens porque querem que os espectadores se importem com eles, aumentando a monetização futura. Um produtor de Tamako Market solicitou cenas adicionais na escola para que tivesse uma atenção maior nas garotas adolescentes.

Como é feito um anime? A pré-produção de um anime - Parte 2

Finalmente, o último papel que precisamos mencionar referente ao roteiro é o "produtor literário". Apesar dos detalhes mudarem entre as produções, essa pessoa está encarregada em obter os roteiros até o prazo limite e repassá-las aos diretores do episódio, para que esses deem continuação a produção. Essa pessoa também acompanha as leituras de cada sessão de roteiro e revisão juntamente com o compositor da série e diretor para dar sua opinião em alguns detalhes. Além disso, também se encarrega de pequenas tarefas de modo a deixar toda a parte do roteiro "nos trilhos".

Para resumir, há várias pessoas que trabalham no roteiro de uma série. Apesar do diretor e compositor da série criarem a base para cada roteiro, os produtores, roteiristas adicionais e até mesmo membros da produção literária estão envolvidos na versão final do roteiro... que, claro, pode ser alterado em qualquer momento pelo diretor do episódio, se ele sentir necessidade. É um esforço colaborativo, então todos recebem créditos, ou culpa, pelos aspectos passados aos espectadores. Tentar culpar apenas uma pessoa por um aspecto, que pode ter sido fator de um diretor que indicou alguém, ou um produtor que sugeriu uma mudança é injusto para um trabalho que envolve toda a equipe trabalhando. É mérito ou culpa da equipe como um todo.

Enquanto os roteiros estão sendo trabalhados, outro grupo de pessoas estão trabalhando com desenhos em outras partes da produção. Isso inclui personagens, cenários e tudo desse universo. A produção de um anime envolve várias coisas ocorrendo ao mesmo tempo, então é óbvio que esse pessoal não estão esperando sentados até que o roteiro esteja completamente escrito. Mas por ora, a matéria fica por aqui. Fique ligado para a terceira parte, em breve.

Fonte
Artigo adaptado para a VSA


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