Entrevista com a ilustradora profissional Mika Pikazo

Entrevista com a ilustradora profissional Mika Pikazo



Nessa série de posts sobre as pessoas que respiram e vivem na indústria de anime, temos uma entrevista com a artista e ilustrador, Mika Pikazo, que nos fala um pouco sobre todo o seu trabalho e processo criativo.

Ilustradora Mika Pikazo

Mika também nos conta um pouco sobre sua jornada até finalmente virar uma profissional, além de dar algumas dicas valiosas para quem está começando a desenhar e quer seguir nesse ramo. Com uma história surpreendente, superando momentos complicados da vida em seu passado, onde considerou abandonar o sonho de trabalhar com desenhos, e até mesmo uma viagem até o Brasil, ela é um exemplo para muitos jovens dessa geração que desejam se tornar ilustradores profissionais, mas não sabem por onde começar.

"Um desenho preenchido com coração, corpo e alma"

Ilustradora Mika Pikazo
Ilustração feita no dia da entrevista, por Mika Pikazo

- Obrigado por nos receber hoje! Antes de começarmos, poderia nos contar um pouco sobre a ilustração acima?

Eu achei que seria legal usar alguns dos meus designs favoritos com uma temática "fofa e colorida". Eu planejo desenhar um padrão japonês combinando com cores vivas como vermelho e amarelo.

- Muito dos seus desenhos possuem uma temática meio japonês tradicional. Na sua cabeça, qual é o principal apelo dos padrões japoneses?

Os padrões elaborados que vão além das formas e contornos simples, incorporando desenhos florais e com ondas para deixá-los extravagantes, mas de aparência delicada. Eu os acho atraente pela forma no qual facilmente a expressão do desenho pode ser alterado dependendo da sua forma de desenhar.

- Isso é verdade. Para os novatos, padrões japoneses podem ser um pouco intimidantes pelo alto nível de detalhe. O que você acha disso?

Por eu os desenhar o tempo todo, eu me acostumei com os movimentos e técnica envolvida neles. De vez em quando eles surgem do nada em meus desenhos sem eu sequer perceber. 

- Então os padrões japoneses são o foco principal para você e seus desenhos?

Não, eu não diria que são o meu foco principal, mas eu gosto de desenhá-los. O que eu tento manter em mente quando desenho é a "visão global". Em vez de fazer um único, comum e qualquer desenho, eu tento pensar no mundo em que o desenho está, assim como os personagens que nele vivem. Olhando a ilustração acima, por exemplo, eu tentei retratar toda a interação entre personagens e objetos, como os pássaros no guarda-chuva, de modo que tudo ali pareça estar em movimento para quem está vendo a imagem.

A arte que eu fiz para Aisare World de Kouta Nozomi (HJ Novels), foi a primeira vez que fiz ilustrações para uma novel. Nisso, eu percebi que meus desenhos não seriam apenas desenhos aleatórios, mas sim algo que se tornaria parte de uma história, o que é muito significativo para mim. Foi assim que comecei a desenhar coisas que fossem mais do que desenhos individuais, apenas.

Ilustradora Mika Pikazo
Aisare World de Kouta Nozomi (Hobby Japan, 2015)

"É importante usar bem o tempo de preparação antes de começar desenhar"

Ilustradora Mika Pikazo
O desenho mostrado agora pouco, com anotações

- Acredito que muitas das suas anotações nesses desenho seja algo universal para diferentes tipos de artes. Tem algo que você dá uma atenção especial quando está desenhando?

Se estou desenhando um personagem de um anime ou jogo, por diversão, eu faço o meu melhor para não me desviar muito do esquema original de cores. Por outro lado, se estou fazendo uma ilustração original, gasto um pouco do meu tempo experimentando cores diferentes que se encaixem na minha concepção daquele universo. Quando se está fazendo uma imagem mental no quadro, é importante que você gaste algum tempo nisso, antes de chegar nas partes de colorir.

Ao dedicar bastante tempo nesse "rascunho", você terá uma ideia melhor do que você precisa desenhar antes de por em prática. Se você não dedicar um tempo nisso, você vai se sentir perdido no meio do caminho em relação ao que queria desenhar originalmente. Esse preparo fará com que a transição da cabeça para o quadro aconteça de maneira mais suave, no ritmo certo, e com um controle melhor de como as formas e os traços sairão.

- Interessante. Falando em ritmo, como funciona esse processo?

Comigo, eu escuto música enquanto trabalho. Ter uma música animada tocando me mantém trabalhando em um bom ritmo, e geralmente escuto algo como "house music" quando começo o trabalho. Nas partes finais do desenho, eu escolho algumas músicas mais aceleradas. Escolho desde Lady Gaga, Skrillex e músicas de anime que eu gosto. A propósito, as músicas que escutei durante essa ilustração que fiz hoje, eram de Ringo Shiina.

Eu digo bom ritmo, mas não significa que eu trabalhe rápido ou não gaste um bom tempo no processo. O que o "ritmo" faz é permitir que eu trabalhe num sistema de tentativa e erro mantendo a boa disposição e ritmo de trabalho. Isso me ajuda a decidir quando e onde comprometer em alguma parte, e quando ficar satisfeito o suficiente para começar a desenhar outras partes.

"A mudança de mentalidade me ajudou a confirmar o desejo de me tornar profissional"

- Seguindo em frente, nos conte sobre sua jornada de se tornar uma ilustradora profissional. Quando você começou a desenhar?

Desde uns 2 ou 3 anos de idade. Sempre desenhava o quanto conseguia e amava isso, e até onde eu me lembre, sempre fui muito boa. Por isso eu sabia que queria me tornar ilustradora profissional.

Mas houve momentos que as coisas não estavam muito bem, e quando olho pra trás, talvez eu não tivesse a perseverança para viver como uma ilustradora.

Mas quando eu estava com meus 20 anos, eu percebi e entendi minha própria falta de maturidade. Em certo momento, eu desisti de desenhar como forma de sustento, mas finalmente, entendi que eu ainda amava o ato de desenhar, e então resolvi de vez me tornar profissional.

- Pelo visto houve uma reviravolta nesse período. O que aconteceu especificamente?

No fim do ensino médio, eu estava naquele estado de não saber o que fazer da minha vida. E então, logo após me formar, eu acabei viajando até o Brasil devido a alguns contatos com parentes, e fiquei lá por dois anos.

Eu deixei o Japão quando tinha uma forte vontade de virar ilustradora profissional, então viver meus dias tão longe de casa pode ter fortalecido essa vontade ainda mais. Foi nessa época que eu acabei aceitando um trabalho pequeno de fazer ilustrações para um jogo de rede social. Eu percebi que esse era o tipo de trabalho que eu sempre quis, e me veio uma forte sensação de convicção, que eu jamais havia sentido antes, de que isso era o que eu queria fazer da vida.

Quando olhei minhas ilustrações finais, eu pensei "Até eu consigo fazer algo", e minhas ambições de se tornar uma profissional voltaram. Eu decidi que queria ficar nesse mundo das ilustrações e que desenhar era o que me mantinha conectado com ele. 

Ilustradora Mika Pikazo
Lindo trabalho por Mika Pikazo, hoje, ilustradora profissional

- Então bastou um trabalho para te trazer essa convicção?

Exatamente. O trabalho me fez pensar quais os tipos de desenhos estão em alta, e me permitiu fazer ilustrações com maior qualidade. Alguns encontros que eu tive no Brasil também me ajudaram a mudar meus sentimentos.

Eu sempre gostei de culturas diferentes e coisas "underground". Mas na escola, nunca pude expressar isso claramente. O povo japonês tende a ser mais conformista. Há uma tendência de você gostar das mesmas coisas que todo mundo, e quando você é diferente ou contrário a isso, você é criticado ou feito de piada... e me lembro de ter que lidar com a dor de não ser compreendida ou aceita.

Mas, no Brasil, pessoas da minha idade eram todas sensíveis e tolerantes. Havia nacionalidades diferentes e cores de pele diferentes. Diferentes maneiras de pensar. E em vem de desencorajar essas diferenças, eles a celebram. Pessoas com gostos e passatempos completamente diferentes se reúnem e se divertem da mesmo assim. Com isso, aprendi a apreciar o valor que é a diversidade. Também percebi que não havia problema em me expressar usando minha arte.

Por isso, acho que meu tempo longe de casa foi algo bom. Muitas pessoas também comentam que o uso de cores em meus desenhos expandiram bastante por conta da minha viagem ao Brasil, mas acho que foi mais por conta de ser capaz de olhar para mim mesma e encontrar minha própria capacidade criativa, que estava escondida naquela época.

"Se você fizer o que ama, os caminhos vão se abrir"

- Por favor nos conte sobre o que você gostaria de fazer no futuro.

Eu gostaria de trabalhar com pessoas em áreas diferentes da minha, como música ou filme. Assim como eu mencionei sobre as novels, eu quero presenciar mais aquele sentimento de minha arte se tornar o trabalho de alguém.

E acima de tudo, de forma a recompensar tantas pessoas e criadores que me apoiaram durante meus momentos mais complicados, e que sempre me encorajaram mesmo quando eu mesma não acreditava nisso, eu gostaria que minha arte pudesse contribuir para eles e ser algo que ajude outras pessoas.

- Por último, você gostaria de deixar uma mensagem para seus fãs e aos que sonham se tornar artistas e ilustradores profissionais?

Meu desejo de melhorar as coisas vem da minha paixão pelo desenho. Houve partes de mim que não concordavam com a minha decisão de sair do Japão para o Brasil, mas perseguir o amor que eu tenho, apesar das circunstâncias, é o que me permitiu me tornar quem eu sou hoje. Foi o amor que tenho pelo desenho que me salvou.

E não acho que esse amor deva ser limitado apenas em arte. Através do amor e paixão de uma pessoa pelo o que ela faz, ela poderá fazer coisas que somente ela poderia fazer.

Então siga suas paixões, até que você tenha certeza absoluta de que isso é o que você quer fazer da sua vida. Sinta e presencie várias coisas diferentes. Você é o único capaz de tomar a decisão do seu futuro. Se você tem fé em sua intuição, acredito que o caminho vai abrir pra você.





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