Just Because! e o problema da animação e realismo nos personagens de animes

Just Because! e o problema da animação e realismo nos personagens de animes




Problemas de produção de um anime nunca é um assunto agradável, até porque, a indústria de anime está lotada de pessoas que literalmente passam por dificuldades e não devemos levar isso na piada. Mas há coisas que não podemos deixar passar também. E para isso, vamos usar o anime da temporada Just Because!

Just Because! é uma série original produzida em um estúdio jovem chamado Pine Jam, e está sendo transmitido há poucas semanas. Mas mesmo há pouco tempo no ar, as pessoas já começaram a perceber algo de errado nele. Desde o seu início, e apesar de vários animadores supervisionarem os primeiros episódio, a arte do anime tem sido absurdamente inconsistente. Muito mais do que preocupante, os desenhos não batem com cada corte individual, fazendo com que várias cenas fiquem estranhas por conta de sequências desenhos inadequadas, e isso demonstra não só um problema com os diretores de animação, mas como os responsáveis pelos in-between. Esses problemas são tão aparentes que até mesmos fãs sem muito interesse na animação conseguem notá-los. 

Just Because!

O diretor da série, Atsushi Kobayashi, teve alguns problemas no Twitter enquanto falava das dificuldades que está tendo com o projeto e sua agenda complicada. Desde então, ele deletou os tweets em que culpa o estúdio, até porque, tirar satisfações do tipo não é a ideia mais inteligente em uma indústria que depende fortemente de contatos. Mas o fato permanece, de que Atsushi ainda estava corrigindo a storyboard do episódio 8... que irá ao ar em pouco tempo. Uma produção de Anime demanda bastante trabalho e o grande vilão de sempre continua sendo o tempo.

E por que chegou nesse ponto? Considerando os comentários de Atsushi Kobayashi, é visível de que o planejamento e a pré-produção poderiam ter sido administrados de forma mais eficiente. A Pine Jam é uma equipe pequena que se dividiu do Estúdio 8-bit há apenas alguns anos, e após ter realizado alguns trabalhos como terceiros para séries como Aikatsu, eles finalmente fizeram uma produção própria em 2016. E logo após o fim de Gamers!, eles chegam com Just Because! E apesar de serem equipes-chave diferentes e depender de outras empresas, é fácil de ver qual o problema aqui... Um estúdio novo e minúsculo tentando dois projetos consecutivos. Se a administração deles fosse qualquer coisa menor do que excelente, já seria um problema.

A parada é que, isso não deveria ser algo tão horrível. A indústria, infelizmente, está acostumada a operar em prazos curtíssimos, e um anime como Just Because poderia ser, relativamente, uma produção com pouco esforço. Mas o fato de ele ser um dos animes atuais mais exigentes, e de certa forma desafiador, foi uma decisão arbitrária. A série retrata cuidadosamente ações do dia a dia, pequenos gestos e expressões, postura, comportamento individual, todos esses minúsculos detalhes que criam a ilusão de uma realidade. Apesar de muitos desses não serem individualmente trabalhosos, tudo se acumula e gera mais trabalho do que um anime de TV padrão teria; requer mais cortes com movimentos de verdade, além de exigir que o diretor trabalhe minuciosamente guiando os animadores para que cada ação seja apropriada. No fim do dia, isso é muito mais intenso e complicado do que alguns poucos momentos espetaculares em outros animes que podem ser lidados com apenas alguns animadores talentosos.

Just Because!

É aqui que esse problema deixa de ser somente nessa série, e se torna mais sobre os animes em geral. Quando pensamos na animação moderna japonesa, há dois tipos em que podemos classificar a atuação dos personagens, que chamaremos aqui de "atuação" e "vida". Na atuação, que é o caso mais comum em animes, o movimento é o ponto focal do desenho, e representa mais do que os personagens estão de fato realizando. Como regra geral, as emoções são exageradas e servem como uma paltaforma para o animador expressar a si mesmo, e não necessariamente a personagem. Apesar de serem divertidas e captantes, elas não são tão relevantes, chegando ao ponto onde você pode simplesmente dar um tapa na cara de outro personagem e não mudaria nada. Por outro lado, temos casos como Just Because!, que representam a "vida" na atuação dos personagens. Todos são tratados como pessoas de verdade e cada uma de suas ações tendem a serem coerentes com suas personalidades e suas situações atuais. Esse tipo de atuação geralmente reforçada pelos diretores, que já traçam o comportamento de forma bem precisa nas storyboards. Ou seja, não é coincidência quando dizemos que o anime teve 5 storyboaders já no segundo episódio, e que o próprio Kobayashi constantemente precisa dar suas correções. Quando você coloca tanto ênfase em ações minuciosas, os animadores precisam providenciar orientações muito mais concretas e coerentes para o show como um todo. Obviamente que um anime não precisa ser um ou outro, idealmente é bom que haja os dois, mas tentar expressar a atuação "vida" é bem mais rara. Requer um esforço mais coordenado e cuidadoso.

Para ser sincero, e tentando simplificar um pouco, há (na minha opinião) apenas dois estúdios que podem atingir consistentemente o nível de atuação "vida" em animes de TV - que não necessariamente os tornam melhores, mas sem dúvida são os mais aptos nesse quesito. Um deles é a Kyoto Animation, que é um estúdio completamente diferente do resto da indústria e possui uma filosofia própria. O outro seria a Production I.G. E por ter trabalhado como assistente de produção lá, Kobayashi absorveu muito dessa filosofia de atuação e provavelmente tem como seu objetivo agora que é diretor. Então não é surpresa que, sem uma equipe capaz e preparada por anos para produzir esse estilo particular de anime, estamos vendo Kobayashi ter dificuldades com esse projeto.

Just Because!

Mas será que tudo isso vale a pena? Os outros estúdios deveriam tentar capturar mais esse sentimento de "vida", apesar de ser imensamente mais difícil e com mais chance de ter problemas? No que diz respeito aos primeiros episódios de Just Because, eles são absolutamente agradáveis, apesar de seus problemas. Sem dúvida seria algo animador se essa abordagem fosse mais acessível em animes de TV, se mais empresas treinassem nossos animadores e aspirantes a retratarem pessoas e não apenas fantoches bonitinhos e engraçados. 

Animes precisam de mais pessoas como Atsushi Kobayashi e empresas como Pine Jam, que confiam em jovens artistas e abraçam essa ideia em detrimento de um certo aspecto de "polidez". Mas mais do que qualquer coisa, animes precisam de um ambiente onde criadores possam produzir o que querem e serem criativos sem a preocupação de que tudo possa desmoronar no dia seguinte. Independente de como Just Because! vai se virar para manter sua produção em tempo, o problema em questão vai continuar na indústria.










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