Entrevista com o Autor de Ryuuou no Oshigoto!

Entrevista com o Autor de Ryuuou no Oshigoto!



Entrevista com o Autor de Ryuuou no Oshigoto!

Shirow Shiratori já tem uma certa experiência na criação de Light Novels. Sua penúltima série, No-Rin, foi adaptada em anime em 2014. Agora, em sua última obra, Ryuuou no Oshigoto!, ele já conseguiu o primeiro lugar na Kono Light Novel ga Sugoi! em 2017 e 2018. Ryuuou no Oshigoto também já tem uma adaptação em anime que está sendo exibida nessa temporada.

A obra é bem aceita tanto por críticos da indústria quanto por profissionais de shogi, por suas partidas emocionantes e uma retratação fiel do mundo profissional de Shogi. Recentemente, a Anime News Network teve a oportunidade de conversar com Shiratori sobre sua obra, shogi e todo o negócio que envolve o mundo de light novels.

- Quando você começou a jogar Shogi?

Eu comecei no Ensino Fundamental, quando tinha uns 5-6 anos de idade. Meu avô jogava Go, sabe, e ele tinha um jogo de Go e Shogi em casa.

No Japão, há várias pessoas que podem te ensinar a jogar Shogi. Mas mesmo assim, as regras são bem difíceis, e se trata de um jogo muito complexo, da mesma forma que o xadrez. Coisas como mangás podem tornar ele mais acessível.

- O seu conhecimento sobre shogi mudou após você começar a escrever Ryuuou no Oshigoto!?

Quando estava escrevendo, eu fiquei impressionado com o shogi amador. Ele é muito mais "livre e natural". No Shogi profissional, as teorias que as pessoas seguem são mais rígidas e regradas. É meio como escrever uma light novel. Há várias "regras" como a necessidade de incluir várias personagens femininas, ou como o protagonista precisa ser um adolescente. E com Shogi, há coisas que você precisa seguir também. Eu fiquei conhecendo mais dessas coisas na medida que eu ia escrevendo a história.

- Em Ryuuou, fica bem explicado de que não há muitas jogadoras no cenário profissional de shogi, em contradição, temos várias personagens femininas na série. O quão realista isso é?

Atualmente, não há nenhuma jogadora que é formalmente reconhecida como profissional. Elas existem em um nível abaixo, algo como semi-profissional. Mas há as ligas femininas, e muitas mulheres estão presentes nesse cenário.

A forma com a qual eu retratei as personagens femininas é bem fiel a realidade, em certos aspectos. Há muitas mulheres que são aceitas como discípulas e pupilas, e acabam indo para as ligas femininas. Muitas garotas também vão em escolas de Shogi. Eu queria muito capturar esse mundo onde jogadoras femininas trabalham lado a lado com os profissionais e tentam ser as melhores nesse jogo.

Entrevista com o Autor de Ryuuou no Oshigoto!
"Como prometemos, eu vim para ser sua discípula!"

- O quão realista é a existência de crianças "gênio" como Yaichi e Ai no mundo de Shogi?

Bem, o mundo de shogi é um lugar onde os talentos se manifestam bem cedo. Ai, por exemplo, decidiu aprender shogi bem mais tarde se comparada a várias crianças que tem a vontade de se tornarem profissionais nessa idade. Por exemplo, Ginko é uma personagem que está bem próxima ao nível de profissional, e ela atingiu esse nível aos 14 anos de idade porque ela começou quando era bem criança. Isso realmente existe no mundo do shogi.

Por outro lado, Ai pode ter aprendido as regras um pouco mais velha, mas acredito que a progressão dela não é muito realista para uma jogadora garota, apesar de que há jogadores garotos que conseguem dominar shogi com apenas meio ano após aprendê-lo.

- Yaichi Kuzuryu já conseguiu o título de "Ryuo" sendo bem jovem, mas acaba caindo em uma sequência ruim por conta da pressão. O quanto isso é relacionável com você?

Bem, eu não sou tão jovem, então não sei bem como é lidar com esse tipo de pressão enquanto escrevia a história. Mas é claro que eu fico nervoso com a recepção do meu trabalho. Quando você é um autor de light novel, você pode produzir um grande sucesso, mas nunca saberá com certeza se o seu próximo terá o mesmo sucesso. Não existem tantos autores que vendem só pelo nome, sabe? Mas apesar de ficar nervoso toda vez em que lanço uma nova obra, acho que nunca entrei num período "ruim" como Yaichi.

- O seu editor também sabe jogar shogi?

GO KOHARA (editor): Eu conheço as regras, pelo menos!

SHIRATORI: Bom, eu sou o responsável por entregar a história, então eu tenho que fazer toda a pesquisa independentemente. E aí, meu editor dá uma geral por cima. Mas eu também tenho um supervisor que verifica todas as cenas de shogi para mim.

- Que tipo de feedback o seu editor lhe dá?

Ele não sugere muitas alterações. Como eu devo dizer...? Ele tenta analisar as coisas da forma que um leitor comum veria. Em vez de pedir mudanças muito específicas, ele apenas me dá as impressões gerais como "Essa parte é muito chata", e então eu vou para casa e reviso todas essas partes. Eu preciso pensar na melhor maneira de alterá-las. Eu recebo conselhos de como eu poderia mexer em certas coisas, mas fora isso, eu tenho que pensar por conta própria.

- Como você consegue fazer as cenas de shogi serem animadas?

Shogi é um esporte chato de se assistir, mesmo para os fãs. Algumas partidas levam dez horas. Como autor, você precisa garantir que as pessoas não fiquem entediadas e que as pessoas que não saibam das regras, ainda assim sejam capazes de entender o que está acontecendo. 

Então quando eu escrevo, eu tenho algumas "premissas". Em novels, você só pode se utilizar de palavras para mostrar o que está acontecendo. Por isso, toda a ação precisa ser um confronto de princípios entre duas pessoas. Em uma cena de batalha, você não será capaz de diferenciar os personagens, a não ser que eles tenham diálogos. Primeiro, você exalta suas personalidades, e depois você prepara como uma partida entre eles seria.

Entrevista com o Autor de Ryuuou no Oshigoto!

Depois que você conseguiu tudo isso, a cena de shogi em si é apenas o resultado. O final precisa fazer sentido e ser satisfatório ao leitor. A parte de shogi leva uma abordagem diferente dos desenvolvimentos da história, então eu tenho que garantir que todos os detalhes não sejam "chatos" para quem está lendo.

- Você tirou alguma inspiração de mangás nesse assunto?

Ah, sim. Pegue Hikaru no Go, por exemplo. Você raramente vê as partidas. Elas levam, sei lá, duas páginas. Você apenas vê o suficiente para sentir o fluxo da partida. O que o torna interessante são os personagens. Quando Isumi estava jogando contra Ochi, ambos estavam dando o seu melhor, mas o mangá quer que você torça por Isumi. A partida leva apenas uma página, mas você lê várias paginas de Isumi se agonizando sobre os próximos movimentos.

Entrevista com o Autor de Ryuuou no Oshigoto!

Acredito que isso seja muito importante, e é por isso que eu usei Hikaru no Go como referência na minha obra. Eu posso não ser muito bom em shogi, mas é mais importante ser um bom escritor, então minhas habilidades no jogo não serão um problema. Sobre escrever sobre shogi especificamente, há vários escritores de shogi que escreveram sobre partidas famosas, e eu as usei como inspiração também.

- Como você se sentiu quando Ryuo ficou em primeiro lugar na Kono Light Novel ga Sugoi!?

Foi a primeira vez para mim. Eu nunca tive a impressão de que Ryuo fosse se tornar um sucesso, mas quando ele passou outros grandes nomes, admito que me senti um pouco estranho no começo. Mas me senti agradecido também, e isso me inspirou a trabalhar mais duro. "Agora eu TENHO que vender mais cópias", pensei.

A primeira vez que Ryuo ganhou na Kono Light Novel ga Sugoi!, a obra contava com três volumes, e quando ganhou novamente esse ano, haviam cinco. Fiquei feliz sabendo que produzi vários livros que foram recebidos tão bem. Me fez pensar que escrever Ryuo foi mesmo uma ótima decisão e me deu mais confiança para trabalhar.

- Sua série anterior, No-Rin, era uma história que se passava em uma escola rural. Como essas histórias, com premissas nada comuns, surgem?

Com ambas as séries, eu escrevi sobre coisas que eu achava ser interessante da minha própria experiência pessoal. Antes de No-Rin, eu escrevi uma história de fantasia que aconteceu na Era Napoleônica sobre navios. As descrições eram enormes e exaustivas. Como eu não queria repetir essa experiência, eu fui escrever No-Rin sem saber nada sobre agricultura. Até hoje, eu ainda não sei muito. Mas da mesma forma, muitos dos meus leitores também nunca tinham trabalhado numa fazenda antes. Eu queria escrever light novels que fizessem as pessoas se interessarem por algum tópico específico que elas não conheciam ainda.

Entrevista com o Autor de Ryuuou no Oshigoto!

O mesmo vale para Shogi. Eu sou terrível nele, mas é por conta de eu não estar presente nesse mundo que eu posso sentir o que é interessante nele para outras pessoas de fora desse mundo de shogi. Acho que é importante não se prender muito a detalhes.

- Aliás, você melhorou no shogi desde que começou a escrever Ryuo?

Não (risos). Minhas habilidades não melhoraram nem um pouco. Desculpe dizer isso.

Shogi é realmente um jogo muito difícil. Claro que eu adoraria se pudesse ganhar dos meus oponentes tão facilmente, mas no final, ganhar ou perder não importa pra mim.

- Isso me faz lembrar de uma parte no volume 2, onde há aquele diálogo sobre a dor ao perder uma partida ser a única coisa que você conhece em shogi. Pode me dizer como você se relaciona com isso?

Ah, sim. Me lembro disso. Não importa qual esporte seja, você sempre quer estar no topo se está disposto a ficar cada vez melhor. Escrever novels é um campo bem diferente, mas em shogi, onde temos claramente um vencedor e um perdedor, a dor da derrota é muito mais profunda, especialmente quando você perde para alguém que você sabe que é capaz de vencer. E também, a ideia de continuar perdendo várias e várias vezes para a mesma pessoa pode ser ainda mais doloroso.

Agora o quanto eu me relaciono com isso... Bem, muito antes de eu começar a escrever novels, eu era muito animado com shogi. Tudo que eu conseguia pensar era em melhorar os meus recordes, então toda vez que alguém os batia, eu me sentia mal e era muito doloroso. É um sentimento que me é bem familiar, desde muito jovem. Para mim foi melhor ter desistido, mas na época, eu me torturei muito com essa decisão.

- Como você se sente sobre leitores ocidentais lendo seus livros pela primeira vez?

O pessoal do ocidente é bem habilidoso no Xadrez, então acho que os leitores devem achar bem interessante a comparação de Xadrez e Shogi. Estou interessado em saber como eles se relacionarão com jogadores de shogi e como suas vidas se diferenciam dos jogadores profissionais de Xadrez.

- É possível aprender as regras de Shogi lendo Ryuo?

Não todas (risos). Isso seria pedir muito, mas eu tentei escrever Ryuo de uma maneira que todos possam se investir na história mesmo sem conhecer as regras do jogo. Escrevi de uma forma que beneficiasse todos os leitores japoneses.

Leitores estrangeiros podem ter mais problemas. Eles podem não saber muito bem o que está acontecendo no tabuleiro, a não ser que haja uma figura. Eu gostaria que meus livros tivessem mais ilustrações. 

Entrevista com o Autor de Ryuuou no Oshigoto!

- Você mencionou em uma entrevista com o "The Anime Man" que Ryuo teve vários problemas em ser aceito internacionalmente por conta das piadas lolicon. Por que você incluiu esse elemento na sua história?

Com light novels, é possível dizer que há duas facções principais: garotinhas vs garotas mais velhas, ou irmãzinhas vs irmãs mais velhas. Amigas de Infância não são tão populares assim quando tem a mesma idade que o protagonista. Então quando eu precisei enfrentar uma escolha entre essas "facções", eu decidi que dessa vez iria de garotinhas. Eu queria tentar algo novo.

- Mas há algumas partes ecchi em Ryuo.

Bem, é como Akage no Anne, quando uma garota jovem vai viver com uma pessoa mais velha. Eu não escrevi Ryuo de forma que ele tomasse um rumo sexual. É mais uma situação onde eu quero que os leitores olhem para as personagens como garotas fofas, de uma maneira paternal. Mas não sei como os leitores vão interpretar minha obra.

- Há alguma light novel que você tenha lido ultimamente e te impressionou?

Eu amo Babuminator. No Japão, a palavra "babumi" se refere a sentimentos de afeições maternais. De qualquer forma, essa novel é bem chamativa e reflexiva. 

- E quanto a outras light novels similares a Ryuo, que rolam no dia a dia?

Hum... eu acompanhei algumas como Eromanga Sensei e Imouto Sae Ireba Ii. Elas são sobre a vida de criadores, mas acredito que elas tenham algumas similaridades com Ryuo. Por exemplo, a ideia de vitória ou derrota é importante no mundo de shogi, mas também é para os criadores. Quando escrevo Ryuo, eu tendo a colocar minhas próprias experiências na obra. Acredito que os autores de Eromanga e Imouto Sae abordam suas histórias da mesma forma. É por isso que eu li essas duas séries, para ver como eles expressam sentimentos e emoções.

- Qual personagem ou cena você espera ver no anime?

É claro que estou ansioso para as cenas de shogi, mas também estou ansioso para as cenas de estabelecimento dos personagens, para mostrar o quão legal eles são. Também estou interessado em como as pessoas no Japão vão reagir a cena da "noiva". Quando eu escrevo, eu geralmente sei quais cenas são bem recepcionadas pela audiência, mas algo como a cena da "noiva", eu não sei como as pessoas vão reagir (risos).

Mas sim, estou ansioso em ver essas cenas na forma de anime e como elas vão se encaixar.


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