A Dificuldade dos Animadores Jovens na Indústria

A Dificuldade dos Animadores Jovens na Indústria




Artigo original do SakugaBlog

Há vários casos interessantes de amadores e diretores que simplesmente entraram no universo de anime e já encontraram sucesso mesmo sendo tão jovens, mas às vezes precisamos entender que eles são os casos raros, e que o fundo é mais embaixo para a maioria dos que entram pra esse mundo. Em um momento onde a indústria precisa de novos criadores mais do que nunca, as condições de trabalho para quem está entrando está tão decadente que isso impacta no produto final, como estamos vendo em muitos animes há alguns anos. 

A Dificuldade dos Animadores Jovens na Indústria

Apesar de já estarmos cansados de saber que a indústria deixa muito a desejar no quesito condições de trabalho, ainda há coisas mais específicas. Muitas delas, são uma escolha deliberada das empresas de produção. Nas páginas de recrutamento, é raro encontrar o valor do salário na descrição. Freelancers nunca estão em uma situação confortável para publicar abertamente seus valores, e até mesmo os contratados precisam manter sua agenda e remuneração como assuntos privados. Por isso, fica muito difícil entendermos e propormos melhorias se os detalhes ainda são muito obscuros. A única forma de sabermos de verdade o que acontece é através de pesquisas anônimas realizadas por terceiros nessa indústria. Mas hoje a ideia é a gente discutir as condições e as dificuldades dos animadores jovens que entram pra indústria, especialmente aqueles que serão animadores in-betweeners.

Como não pode deixar de ser em qualquer lugar do mundo, ramo ou segmento, os jovens sempre são menos pagos. A falta de experiência é o melhor argumento para transformar o salário deles em algo ainda mais inexpressível do que os demais. Organizações como a NPO Animator Supporters tentam resolver esse problema com iniciativas como o Projeto Animator Dormitory, um esforço incrível para fornecer moradia para alguns artistas que estão começando. E através da AEYAC, eles também coletam muitos dados e informações das condições de trabalho deles. Mas só olhar números nem sempre é muito explicativo, por isso vale a pena tentarmos por isso no real. No ano passado, justo o estúdio Ghibli, foi duramente criticado por pagar apenas 200.000 ienes por mês aos seus animadores, mas isso não era a história completa. O diretor, Yasuhiro Irie, precisou aparecer na NHK para defender o estúdio e explicar as pessoas de que esse valor era reservado para os animadores iniciantes que estavam sendo treinados, de que a agenda absurdamente longa não existia pra eles, e que ainda assim, eles eram funcionários em melhor posição do que os demais na indústria. Claro que isso não invalida o nosso argumento de que a animação em si deveria ser mais bem remunerada no geral, mas se não tomarmos cuidados e só olharmos números crus, podemos acabar criticando estúdios que tratam seus animadores em treinamento de uma maneira razoável e decente.

A Dificuldade dos Animadores Jovens na Indústria

Mas já que todos gostam de números, eis alguns da AEYAC. Apenas 7,2% dos animadores jovens são funcionários regulares, enquanto 73,8% são freelancers (desses, 68,6% trabalham no estúdio e 5,2% de suas casas). Os que trabalham em casa, geralmente trabalham na casa de pais ou parentes, ou até mesmo amigos, já que eles dificilmente conseguem pagar aluguel. O expediente mais comum é de 10-13 horas de trabalho por dia, com 88,2% dos animadores jovens acumulando mais de 200 horas por mês. E quando falamos de remuneração, isso fica ainda pior. JANiCA apontou que o salário médio para in-betweeners é de 92.500 ienes por mês, e que 69,3% deles fazem no máximo 120.000 ienes por mês. E o problema não é só o pouco dinheiro, e sim o sistema de pagamento em si. 84,85% dos animadores jovens ganham de acordo com o quanto desenham, apenas 13,17% possuem salário fixo e um número pífio de 0,69% é remunerado por horas. Quase todos os in-betweeners são pagos por desenhos, a taxas ridículas como 200-400 ienes por desenho. Mas isso é ainda pior para os jovens animadores novatos, que acabaram de entrar na indústria. Apenas 0,7% recebem mais de 180.000 ienes, enquanto a maioria recebe apenas 60.000 chegando até o absurdo de apenas 20.000 em seus primeiros meses de trabalho. 

Considerando isso, os valores de 200.000 da Ghibli e o fato de estarem sob a supervisão e treinamento de verdadeiras lendas da indústria, talvez você perceba porque eles não deveriam ser crucificados. Apesar de ainda parecer pouco, e precisarmos mudar o cenário no geral, as condições que a Ghibli estava fornecendo ao seus novos talentos é um esforço aceitável e respeitável, e que deveria ser seguido por outras empresas e aos poucos melhorar esse cenário.

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Agora você deve estar pensando: "Então todos os estúdios grandes devem ser o 'melhor' da pior situação". Bem, nem sempre. A Madhouse, por exemplo, sequer oferece um período de treinamento e sua remuneração é totalmente a base do quanto você consegue animar, o que é algo que animadores experientes conseguem contornar bem, mas é uma carga e pressão muito forte para os que ainda estão chegando e aprendendo. Outros como Trigger e A-1 embelezam o que oferecem com a desculpa de "comissões", onde o salário chega a ser apenas 30.000 ienes por mês, com a "possibilidade de bônus". E outros como a SHAFT, sequer revelam o tipo de contrato que oferecem, muito provavelmente porque não deve ser algo bonito ou atrativo. Gigantes como a BONES valorizam um pouco mais o treinamento de seus jovens, com até 80.000 ienes por mês independente do quanto produzam, e outras como ufotable dão 50.000 no mínimo, ambos com promessas boas e reais de melhorarem seus contratos caso o resultado do trabalho seja satisfatório. Mesmo assim, isso ainda é longe de estar bom, mas são os que mais se aproximam de um "salário mínimo" para esses jovens iniciantes, mais a promessa de crescer na empresa rapidamente com apresentação de resultados e as comissões baseadas nas suas entregas.

Alguns estúdios menores como Science Saru e Colorido se orgulham em abordar a criação de anime de uma maneira mais saudável, onde eles proporcionam espaços mais sustentáveis devido ao seu tamanho menor e outros fatores de produção. Mas mesmo essas empresas menores tem um futuro bem claro: por mais que seus funcionários sejam bem tratados e remunerados, uma vez que recebem grandes projetos, eles precisarão terceirizar uma quantidade grande de trabalho para conseguir entregar o produto final, e não há como você tratar e remunerar o seu terceiro da mesma forma.

Então qual a solução aqui, além do fato de que os salários precisam ser aumentados e as horas trabalhadas diminuídas? Se inspirar nos estúdios de maior sucesso parece ser uma boa opção, mas longe de ser simples. A Toei Animation tem sido um bom exemplo, já que o salário base de lá é de 226.000 ienes (com ajuda de moradia inclusa) dado a todos os animadores em treinamento. Eles conseguem começar com uma boa base e tem muito espaço para crescer lá dentro, o que significa que, caso eles consigam aguentar a produção contínua e louca do estúdio, é financeiramente lógico de se manter trabalhando por lá. Mas a Toei é um caso difícil de ser replicado dada a sua magnitude de presença, marca, e projetos. Nesse caso, a Kyoto Animation tem sido uma referência nos últimos anos, por conseguirem produzir os melhores trabalhos alinhados com o melhor ambiente de trabalho e crescendo cada vez mais. O curso de treino de animação deles é o primeiro passo para eles, que oferecem a animadores principiantes o salário de 202.000 ienes por mês além dos bônus com hora extra e oportunidades de crescimento. Benefícios como despesas de viagens além de 50.000 ienes por mês para melhorar suas habilidades (desde ferramentas a cursos) somados a apoio de maternidade, creche e etc, e seguir as leis de pelo menos dois dias sem realizar hora extra, fazem deles um estúdio saudável de se trabalhar. 

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E mesmo tudo isso sendo mais fácil falar do que fazer, alguns estúdios aventureiros estão tentando reproduzir isso. O aluguel em Kyoto é 35% mais barato que em Tokyo, local onde a maioria dos estúdios são localizados. Estúdios como Kinema Citrus e White Fox abriram subsidiárias em locais mais baratos, para garantir que os jovens que trabalham nelas tenham uma vida mais saudável do que seus parceiros em Tokyo. Os esforços deles podem levar anos pra fazer diferença no mercado de trabalho de anime, mas é bom ver que alguns deles estão fazendo mais do que simplesmente vir com a desculpa de "não poder oferecer uma condição melhor".

Um bom planejamento de longo prazo em melhoria dessas condições podem trazer benefícios pra funcionários, empresas e fãs. Vamos olhar pra KyoAni novamente. A média dos funcionários de lá é de 32 anos e eles tendem a ficar com o estúdio por muitos e muitos anos. E por mais que a gente saiba das dificuldades, vimos que é possível de se criar um espaço não apenas saudável financeiramente, mas profissionalmente para atrair jovens talentos. 

No entanto, a indústria não é homogênea e não há uma fórmula única para o sucesso. Já vimos estúdios que foram listados negativamente e foram colocados como ótimos de se trabalhar por alguns artistas. No entanto, o que é fato é que melhorias precisam ser feitas para tornar essa indústria mais atrativa para iniciantes e jovens, que deveria ser a prioridade, já que a indústria de anime precisa constantemente de talentos novos para se manter.









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